Percorrer e Sentir as Linhas
Torres Vedras na Primeira Linha
Propomos-lhe um dia inteiro e, também, um dia especial em Torres Vedras, a então vila que se fez cidade e que emprestou o seu nome às Linhas. Um dia nas fortificações de campanha, que se ergueram para receber batalhões de nacionais e estrangeiros, soldados de ontem, [feitos] hoje viajantes na demanda da descoberta. Poderá fazer o caminho de carro ou de bicicleta ou ainda, se preferir, no caso da cidade, deixamos o convite para uma, sempre longa, caminhada a pé. Com tempo, todo o tempo necessário para olhar para outro tempo…
John Jones disse que as Linhas tomaram o nome a Torres Vedras pelo caráter pioneiro da sua construção na vila. Comecemos então por aqui! Este deverá ser o ponto de partida, em direção ao norte. Ainda dentro da cidade, caminhando para a sua saída, junto ao Choupal, do lado poente, encontrará o viajante a rua das Linhas de Torres. Há que subir, subir e pedir forças às pernas quando as forças faltam, no caso de ter deixado de lado o carro. Duzentos metros acima, lembremos as vezes que homens e mulheres subiram e desceram o monte, as dores reunidas na construção do Forte de São Vicente, que a devoção ao santo decerto não anularia, mesmo conhecendo as suas qualidades taumatúrgicas.
Chegados ao alto, eis São Vicente! O forte grande de Torres Vedras que ostentou lugar de destaque por ter sido nomeado ponto avançado das Linhas, tal como o forte grande da Serra (Alqueidão), antes de integrar a Linha entre a foz do rio Sisandro e Alhandra. Saiba o viajante que este é o segundo maior forte das Linhas. Percorra os três redutos (obras militares n.º 20 a 22) então unidos entre si por três pontes levadiças, a praça de armas, a casa do governador, a ermida medieval, e descanse… peça mesmo a São Vicente forças para continuar…. Pois o dia será longo como longos foram os dias e as noites dos soldados nas Linhas, que a guerra sempre transformou os dias curtos em compridos.
Junto da ermida, olhando para a cidade, imagine como era feita a defesa, colocando-se por um momento no lugar do estratega militar, uma invocação a José Maria das Neves Costa e a Arthur Wellesley, então visconde de Wellington. Daqui defendia-se a vila das tropas de Napoleão, numa articulação cuidada com o Forte da Forca (obra militar n.º 24), que ficava a nascente, o castelo de Torres Vedras (n.º 27), no centro da vila, então adaptado para receber tiro de artilharia, o Forte de São João (n.º 25), junto à ermida que lhe deu nome, hoje no centro da cidade, e, ainda, uma bateria à esquerda de Varatojo (n.º 131).
Temos de partir, saindo do Forte de São Vicente, virando à direita. Duzentos metros à frente, entre por uma estrada de terra, como eram quase todas as estradas militares no outono de 1810, e rapidamente alcançará o Forte de Olheiros (n.º 23). É pequenino… mas maravilhoso! Cabe todo num olhar! A entrada já não se faz pela ponte de outrora, levadiça como todas as pontes dos fortes. Na sua frente, encontra uma barreira, um través, para proteger a entrada, por detrás da qual se encontrariam soldados do exército anglo-luso, procurando reprimir o exército inimigo. Ao fundo, um velho moinho transformado, contra sua vontade, em paiol. Na muralha em redor desenham-se canhoneiras saudosas das exibições de tiro saídas dos canhões sobre os estrados de madeira. Imagine o viajante o estrondo… e faça votos para voltar num dia de recriações porque há tiros, no primeiro ou segundo fim de semana de outubro, integrado nas comemorações anuais das Linhas de Torres Vedras.
É altura de descer, para subir de novo, subir o monte fronteiro ao de São Vicente, do lado nascente. É o monte da Forca, pontuado por um forte (n.º 25), que também tomou o nome da garganta do vale muito mais profundo há duzentos anos. O Forte que espera por vizinho um Centro Interpretativo das Linhas de Torres Vedras.
Voltemos à cidade, o velho castelo medieval há muito tempo que espera por nós. As calçadas estreitas e sinuosas transportam-nos para inícios do século XIX, onde cada pedra conta uma história. Teremos de subir, como fazia o alcaide que já não mora no castelo, e entrar na fortaleza que recebeu reis e rainhas e se viu cercada pelo Mestre de Avis em 1384, depois das festas de São Gonçalo de Lagos (27 de outubro)… A mesma fortaleza que acolheu prisioneiros, rendeu homenagem aos Soares de Alarcão e defendeu Portugal das tropas de Napoleão.
É talvez altura de almoçar. Bons restaurantes não faltam na cidade, podendo acompanhar o almoço, na hora do jantar de Oitocentos, com um copo de vinho. Afinal beber vinho também é invocar a memória! Wellington, enquanto residiu em Portugal, usava um único vinho de pasto, o de Torres Vedras, o tinto da quinta de Charnixe e o branco da Ribeira de Maria Afonso. Para o lanche, sugerimos um pastel de feijão, que sempre se encontram, em caixas de meia e dúzia.
Rumemos a sul da cidade, para nos situarmos na rotunda da entrada sul da Autoestrada (A8), transpondo-a, e virando à esquerda 50m adiante, se o viajante não começou por aqui. Teremos de subir de novo, porque o interesse e a beleza das Linhas assentam precisamente na natureza que, num gesto de solidariedade, se colocou ao serviço da estratégia militar. Por isso mesmo, cada ponto elevado, ponto por ponto, numa linha paralela entre o mar e o rio Tejo, se solidarizou com o povo, oferecendo o seu contributo, elevando-se ainda mais, com a ajuda dos homens. Em pouco mais de um ano, os montes tornaram-se montanhas, que André Massena, o comandante do Exército de Portugal ao serviço do imperador francês, testemunhou.
A subir, passando a ponte sobre a Autoestrada, encontra-se à direita um trecho de estrada militar, que a própria toponímia registou. Só poderá fazer este percurso a pé ou de bicicleta. No cimo do caminho, um moinho localiza o Forte de Catefica. Se veio de carro, terá de voltar atrás e subir, continuando até encontrar a indicação de Casal da Boavista. Aqui, vire à direita, seguindo até alcançar o topo da serra. A meio, encontra-se o Forte da Feiteira (n.º 129), destacando-se o fosso, com o empedrado original. Este é também um bom momento de contemplação, assim tenha o viajante sorte com o tempo, permitindo avistar uma grande vastidão do território das Linhas e o mar, junto à foz do Sisandro, onde acabava a primeira Linha. Este é o lado interior das Linhas, onde se construíram as estradas militares que permitiam a comunicação do exército anglo-luso, onde circulavam os homens e as bestas, as armas e os alimentos. Em frente, fica o vale de Runa, permitindo imaginar o combate de Runa de 1 de novembro de 1810, entre soldados franceses e as tropas da Leal Legião Lusitana, sob o comando do capitão Veloso Horta.
Continuemos pelo dorso da serra, subindo um pouco mais. No cimo encontra-se o Forte da Archeira (n.º 128). Chegados ao alto, permite-nos contemplar a terra, as Linhas e quase tocar no céu. Olhemos agora na direção Norte-Nordeste e imagine-se, na nossa frente, o exército invasor a ultrapassar as Linhas. Por aqui poderiam ter passado! Os Franceses perceberam isso desde início, e Wellington também o sabia. A expugnação seria possível pelo desfiladeiro de Runa, onde faltavam as construções defensivas. Por detrás da última colina, a nascente, travou-se o combate de Dois Portos, a 13 de outubro de 1810, envolvendo a Divisão do general Solignac e a brigada portuguesa comandada pelo coronel Collins, integrada na Divisão do general Cole. Cole tinha o seu quartel-general ali bem perto, na estalagem da malaposta, na Quinta de A da Guerra.
Regressemos à cidade, para voltar a sair em direção ao mar, agora definitivamente de carro ou de bicicleta, deixando à nossa esquerda o rio Sisandro e a montanha a seu lado, que acolheu 24 dos 152 fortes das Linhas. A primeira paragem é na Ponte do Rol. Até lá, fica um tempo para lembrar que em outubro de 1810, quando os exércitos aliados ocuparam os fortes, só se encontravam terminados 126. Alcançado o centro da aldeia, encontramos a igreja à nossa esquerda e, depois da curva, temos de virar também à esquerda.
O Forte do Grilo (n.º 30) encontra-se em frente, alcandorado, do outro lado do rio. Passe a ponte e vire à esquerda e siga… para voltar a subir. No final da subida, vire à direita e siga a pé por entre a vinha que produz o mesmo vinho de Torres Vedras que deliciou Wellington e os seus generais. É digno de destaque o escarpamento, mas também uma referência ao posto de sinais que aqui existiu e que permitia comunicar com o Forte de São Vicente ou a Serra do Socorro, onde se encontrava o quartel-general de Leith.
Continuemos o caminho com a noção certa de que a melhor altura para o fazer é na primavera ou no outono, devido às temperaturas amenas. O inverno torna o dia difícil, mas mais realista. Não se esqueceram de repetir os soldados pela sua pena as chuvas torrenciais que caíram sobretudo a partir de 8 de outubro de 1810, como também copiosas foram as chuvas desde o outono de 1809 e que gelaram as costas dos milhares de construtores das Linhas. Não será para o viajante difícil imaginar o frio que cada soldado terá passado nas vigias, forte a forte, mais ainda se se esquecer de um casaco. Sigamos pois… em direção ao mar, procurando cruzar o rio Sisandro.
Acabando de passar o rio, e antes da rotunda, vire à direita e continue ao longo de cerca de um quilómetro. Há que subir, mas desta vez a subida é suave. No final da subida, após a curva, vire à direita, entrando numa estrada de terra. O caminho é bom, permitindo chegar de carro ou de bicicleta. Se preferir, pode deixar o carro e ir a pé. Terá outro quilómetro pela frente, somando outro no regresso.
Não será difícil localizar o forte do Paço (n.º 111), bastando lembrar que tem no seu interior um velho moinho a quem a guerra obrigou a tornar-se paiol. Contemple o viajante a maravilhosa vista exterior do forte, uma vez que este não tem vegetação em redor. É fim de tarde e quase fim de dia. Não tardarão as sombras a cobrir a terra. Ouve-se o silêncio de fim de tarde e o mar ao fundo. Certamente cansados. Daqui podemos partir para a segunda Linha, ou regressar a Torres Vedras para, no dia seguinte, efetuar o restante percurso da primeira Linha, até Alhandra. Cabe ao viajante a escolha. Se repousar em Torres Vedras, temos ainda uma proposta. Visite o monumento evocativo da Guerra Peninsular, na praça 25 de Abril, inaugurado em 1954. Em cada uma das faces, pode ler-se a batalha da Roliça, a batalha do vimeiro, a Batalha do Buçaco e as Linhas de Torres. Agora, no silêncio da noite, parecem ouvir-se vozes do passado. Quantas vidas militares e civis não imortalizam estas pedras? Quantas linhas se cruzaram, visíveis e invisíveis, hoje lembradas no anonimato das multidões!






