Percorrer e Sentir as Linhas
Wellington
No coração das Linhas, percorra alguns dos locais mais emblemáticos da presença de sir Arthur Wellesley nas Linhas de Torres. Da Quinta dos Freixos, onde o comandante dos Aliados estabeleceu o seu Quartel-general, ao Grande Reduto do Alqueidão, que assumiu funções de posto de comando das Linhas de Torres, passando pela Serra do Socorro que foi uma estação central de comunicações telegráficas. Os caminhos entre Sobral, Pero Negro e Enxara foram frequentemente cruzados por Wellington, e encontravam-se estrategicamente defendidos por um conjunto de redutos, como os da Enxara junto a Pero Negro ou os do Simplício e Machado ligados ao forte do Alqueidão.
Este percurso pode ser visitado com início no Sobral de Monte Agraço até à Serra do Socorro ou no sentido inverso e integra vários circuitos de visita que podem ser visitados autonomamente: Circuito do Alqueidão e Circuito da Enxara.
Propomos que comece a visita em Sobral de Monte Agraço, localidade que se situa a cerca de 35 km de Lisboa, e a não mais de meia hora de caminho através da A8 ou da A10.
Uma vez na vila, o ponto de paragem é o centro histórico que se desenvolve em torno da Praça iminentemente pombalina, que se afirmou, ao longo do tempo, como espaço de testemunho histórico de transformações comerciais, políticas e sociais. Palco de movimentos de luta, aí se assistiu, entre outros acontecimentos, ao estabelecimento do Morgadio de Sobral de Monte Agraço, por mercê de D. José I a Joaquim Inácio da Cruz, às restaurações do concelho de 1890 e 1898, à Implantação da República em 1910, ou 100 anos antes, ao combate de 12 de outubro de 1810, quando o 8.º Corpo de l’Armée de Portugal, comandado por Jean-Andoche Junot, se encontrava, em Sobral, com os postos avançados de Spencer. As tropas francesas fizeram recuar as anglo-lusas naquele que veio a ser o primeiro recontro de Massena frente às Linhas de Torres Vedras. Escaramuças várias prosseguiram por toda a vila e os franceses, instruídos pelo general Clausel, haviam de se fortificar na povoação até 15 de novembro do mesmo ano, data em que, dissimuladamente, iniciaram a sua retirada da frente das Linhas de Torres Vedras.
Simbolicamente, foi aí estabelecido o Centro de Interpretação das Linhas de Torres dedicado ao tema Estratégia Militar, Posto de Comando e Quartéis-generais que não pode deixar de visitar, pois o conteúdo irá ajudá-lo a compreender e usufruir melhor dos locais que visitará a seguir e que foram palco de um dos episódios mais marcantes da luta pela soberania nacional.
À saída do Centro de Interpretação, e uma vez que passa pelo Posto de Turismo, instalado no mesmo edifício quatrocentista, aproveite para levar consigo mais algumas informações sobre a oferta cultural e turística do município.
De regresso ao carro, tome a Rua Heróis da Bélgica e, chegando à rotunda, siga em frente, pela EN 115. Prenda o olhar no seu lado esquerdo e aviste, ao longe, a igreja manuelina de Santo Quintino [GPS 09º 08' 38,756'' W, 39º 00' 21,488'' N], monumento nacional e uma verdadeira sala de exposição do azulejo, desde os séculos XV ao XVIII.
Um pouco mais adiante, atravesse a aldeia de Seramena, onde teve lugar o combate de dia 14 de outubro. Aí o Regimento britânico n.º 71 colocou barricadas no caminho que levava a Bucelas, passando pelo sopé da serra do Alqueidão. Essas barricadas, muito próximas da vanguarda inimiga, foram bombardeadas às ordens de Junot, mas as tropas britânicas contra-atacaram levando à perda de mais de uma centena de franceses, que não renovaram a ofensiva.
De saída da aldeia, continue em frente e usufrua a paisagem que se revela à sua esquerda. Dali, o olhar mergulha num profundo vale verdejante que avista o alto do Moinho do Céu, onde se estabeleceu o forte n.º 11, desce por Arruda dos Vinhos e alcança a margem do rio Tejo, junto a Vila Franca de Xira até ao Carregado.
Mantenha-se atento porque, em breve, encontra a placa de estrada indicando, à direita, Forte do Alqueidão.
Chegado aí, siga pela estrada de terra e vire à direita, na direção do Forte Novo. Este forte situado no cabeço dos Galhofos, sobre a estrada real que, em 1810, ligava Sobral de Monte Agraço a Lisboa, foi um dos últimos a ser construído e tinha por objetivo reforçar a defesa da serra do Alqueidão, cobrindo, pela direita, o terreno até Santo Quintino, pela frente e pela esquerda, alguns pontos da estrada real e o vale da Arcela, Chancos e Seramena. Saia do carro e aprecie o moinho de vento construído no seu interior, já no início do século XX, e deixe-se envolver pelas cores dos campos em seu redor, sempre em mutação conforme as estações do ano os pintam. De regresso ao carro, siga de volta pela mesma estrada, vire à direita e depois logo à esquerda, poucos metros adiante encontrará o núcleo de apoio ao visitante do Circuito do Alqueidão. Deixe o carro no estacionamento e se levou farnel aproveite para almoçar neste espaço, ao ar livre. Retempere as forças, pois irá precisar delas para percorrer a pé os trilhos dos fortes da serra do Alqueidão. Os amantes do pedestrianismo poderão optar por entrar, a partir daqui, no troço do GR30 – Rota das Linhas de Torres, com uma distância aproximada de 16 km e experimentar uma viagem por locais das Linhas, usufruindo do contacto com a natureza traduzido na diversidade florística onde predominam as espécies de folha caduca, própria dos ares frescos e húmidos do litoral.
Suba pela estrada militar, calcorreie as memórias e as estórias desta calçada e deixe-se levar pelo tempo em que por ali passavam os carros de bois carregados com os fardamentos, mantimentos, feridos e material cirúrgico, a artilharia e as tropas que se moviam, na retaguarda, entre fortes, ou o próprio duque de Wellington que, diariamente, se deslocava do seu quartel-general ao Forte do Alqueidão para inspecionar as posições do inimigo, estabelecido em frente a Sobral.
No fim da subida, tem uma agradável surpresa, o Forte do Alqueidão, ou como ficou conhecido na época, o Grande Reduto de Sobral ou o Forte Grande da Serra. Depois da placa de apresentação, entre, siga o percurso assinalado, suba ao observatório de paisagem e rapidamente perceberá porque se designou este forte de Forte Grande. A 439 metros de altitude deixe-se envolver pela majestosa paisagem. O seu olhar cruza a 1.ª e 2.ª Linhas de Defesa, do Tejo ao Atlântico, detém-se no Montejunto e no Monte do Socorro e vários são os fortes que a vista alcança a partir do ponto em que se encontra e cujos painéis à sua frente o ajudarão a interpretar. O visitante está agora no coração de um conjunto arquitetónico militar sem comparação na Europa.
Depois de observar a paisagem é fácil ao visitante compreender por que razão a sua posição geográfica fez dele o centro da estratégia defensiva de Wellington, transformando-o no Posto de Comando das Linhas de Torres. A sua construção, com início a 4 de novembro de 1809, ocupou uma área de 35.000m2 que incorporou uma grande diversidade de estruturas militares, só paióis podemos contar 4 e pequenos redutos interiores de defesa identificamos 3. Dada a sua missão, foi o único guarnecido com tropa de Linha, com a brigada do general Pack em outubro de 1810 e contou, por decisão de William Beresford, com a criação excecional de duas companhias de artilharia de ordenanças – as Companhias de Artilharia da Vila de Sobral.
Desça do observatório e conclua a visita passando pelos paióis e pela casa do governador e não deixe de reparar nos traveses, ainda visíveis no terreno. Quando sair do Forte do Alqueidão desça pela estrada de terra, paralela à estrada militar e desvie no primeiro entroncamento à direita, em direção aos fortes do Simplício e do Machado. Perca-se por entre as manchas de eucalipto que tomaram o lugar dos sobreiros, pinheiros e oliveiras de outros tempos, e logo encontrará, do seu lado esquerdo, as indicações para chegar as estas duas obras militares. Em cada um deles está uma placa informativa acerca das suas guarnições, bocas de fogo e missões. Estes fortes eram complementares do Forte do Alqueidão, cruzando fogo entre si sobre os acessos à serra, transformando-a num grande entrincheiramento fortificado que teve um papel dissuasor, absolutamente decisivo na retirada de Massena da frente das Linhas.
Volte pelo mesmo caminho e, no entroncamento, desça em direção ao núcleo de apoio. Volte ao carro e retome a EN 115 em direção a Sobral de Monte Agraço. Vire à esquerda quando encontrar a indicação de Cabeda, siga em frente por uma estrada sinuosa e no fim de uma descida acentuada vire, tome a ER 374 e vire à esquerda na indicação de Pero Negro.
Aprecie as elevações, de um e de outro lado, da estrada (da Patameira e da Zibreira) ocupadas, outrora, pelas tropas aliadas, em prontidão.
Passe a localidade de Perna-de-Pau e vire à direita para Pero Negro, atravesse a linha férrea do Oeste, e já dentro da localidade, numa encosta do lado direito, junto ao rio Sisandro, vê o edifício amarelo, onde Arthur Wellesley estabeleceu o seu quartel-general [09º 11' 52,745'' W, 38º 59' 23,220'' N]. A casa, propriedade privada, ostenta uma placa na sua fachada, onde se pode ler nesta casa do barão de Manique esteve o quartel-general do Marechal Sir Arthur Wellesley, em 1810, durante a ocupação das Linhas de Torres. A localização do quartel-general do Supremo Comandante das Forças Anglo-lusas não foi alheio à proximidade do quartel-general de William Beresford, a cerca de 1 km, em Casal Cochim, Sapataria [09º 11' 52,997'' W, 38º 58' 49,585'' N], bem como a imediação do posto de comando das Linhas – o Alqueidão – e a estação central telegráfica da Serra do Socorro.
Estrategicamente estavam, também, posicionados a curta distância os quartéis-generais de La Romana (Enxara dos Cavaleiros, Mafra) e de Spencer (Quinta da Póvoa, Torres Vedras).
A partir de Pero Negro, siga pela EN 9-2 em direção a Enxara do Bispo, entrando no Circuito da Enxara e no município de Mafra. Quando chegar à localidade de Enxara dos Cavaleiros, saiba que foi provavelmente aqui que se instalou o marquês de La Romana, D. Pedro Caro y Sureda, com um exército de 8000 homens. O contingente de La Romana constituía a única força militar espanhola a defender as Linhas de Torres, refletindo o voluntarismo do seu chefe que cruzou a Europa combatendo as forças napoleónicas, desde a Dinamarca a Portugal, onde viria a morrer subitamente em janeiro de 1811. Poucas são as marcas da passagem do exército de La Romana, mas os redutos que defendeu encontram-se em bom estado de conservação, preparados para uma visita.
Os fortes da Enxara posicionam-se entre a localidade da Enxara do Bispo e a Enxara dos Cavaleiros. Enxara, a an-xara - charneca inculta caracterizada por matagais – é mencionada pela primeira vez nos inícios do século XIII. Na primeira metade do século XVI, desenvolvem-se dois núcleos urbanos, as duas Enxaras – do Bispo e dos Cavaleiros – com importantes edificações civis e religiosas, recebendo Enxara dos Cavaleiros o estatuto de sede de concelho. Desse período de apogeu, ficaram importantes marcas patrimoniais manuelinas como o pelourinho na Enxara dos Cavaleiros, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção e a Ermida do Espírito Santo em Enxara do Bispo e a Ermida da Nossa Senhora do Socorro.
Após cruzar a localidade da Enxara dos Cavaleiros, deverá atravessar o viaduto que cruza a A8 e virar à esquerda, numa estrada de terra batida devidamente sinalizada com a indicação “Circuito da Enxara”. A cerca de 200 m da estrada principal encontrará assinalado o Forte Pequeno (n.º 29), recuperado em 2008. As suas canhoneiras estavam apontadas diretamente para a estrada que seguia em direção a Lisboa, evidenciando o objetivo estratégico desta obra. Situando-se diretamente sobre um caminho, o Forte Pequeno encontra-se em razoável estado de conservação, incluindo um paiol e 2 traveses.
Seguindo na direção Noroeste, poderá encontrar a cerca de 700 m o Forte Grande (n.º 28).
Estes dois redutos encontravam-se estrategicamente posicionados entre a 1.ª e a 2ª linhas defensivas, tendo como objetivo estratégico central a defesa da estrada Torres Vedras – Montachique, em apoio do Quartel-general de Wellington em Pero Negro.
Terminada a visita aos fortes da Enxara, poderá seguir diretamente para a Serra do Socorro, regressando à estrada nacional. Deve virar em direção à Enxara do Bispo e no primeiro entroncamento virar à direita, rumo a São Sebastião, localidade situada no sopé da Serra do Socorro onde ainda se conserva a “calçada (ou escadinhas) do duque”, quem sabe, memória dos tempos em que Wellington visitava a Serra do Socorro. Também na base da Serra do Socorro se encontra a Quinta da Póvoa, o quartel-general do conde Spencer, unidade de turismo rural.
A Serra do Socorro, ponto mais alto do município de Mafra, deverá desde sempre ter marcado visualmente as comunidades humanas que ocuparam este território. Arqueologicamente, a sua ocupação está atestada desde épocas proto-históricas (Idade do Bronze – 1º milénio a.C. – até à Idade do Ferro – séc. IV a.C.).
As sondagens arqueológicas efetuadas neste Monumento Nacional (2007 e 2008) permitiram identificar uma possível cabana da Idade do Bronze junto à ermida e parece também provável que todo o povoado fosse cercado por uma muralha defensiva de planta ovalada.
Mais perto do céu, afastado do quotidiano terreno, o topo da Serra do Socorro foi cristianizado através da construção de uma ermida, cujos vestígios mais antigos correspondem à primeira metade do século XVI. Sob o signo da arte manuelina, ergueu-se um pequeno templo rodeado por alpendre e do qual se conservam a abóbada da nave e o portal lateral Sul.
Em meados do século XVIII, reformulou-se o discurso simbólico da capela-mor: construiu-se um retábulo de talha dourada; revestiram-se as paredes com azulejos e encomendaram-se imagens aos escultores da Escola de Mafra. Por volta de 1820 registou-se a derradeira intervenção. Ao mesmo tempo que se fechou o antigo alpendre, limitou-se o acesso à capela-mor com novo arco triunfal e concebeu-se um programa pictórico destinado a enaltecer a figura da Virgem.
A posição proeminente da Serra do Socorro terá levado a que este local fosse escolhido para a implantação de um telégrafo durante a 3ª Invasão Francesa (1810-1811), relacionando-se com a estratégia concebida pelo Duque de Wellington para as Linhas de Torres. Trata-se de um sistema criado especificamente para as Linhas de Torres, concebido pelo almirante Berkeley a pedido do visconde de Wellington, adaptando o código naval da Royal Navy (Poppham).
Na Serra do Socorro, estava instalada a estação de comunicações central que comunicava com os 8 fortes onde estavam colocados os outros mastros de sinais. O sistema incluía duas linhas de comunicação: Grilo, São Vicente, Serra do Socorro, Alqueidão e Sinais na 1.ª linha; e São Julião, Sonível, serra de Chipre e Cabeço de Montachique na 2.ª linha; Alagoa fazia a ligação, pelo lado do Atlântico, entre ambas as linhas. Para Sul, a ligação com Lisboa fazia-se a partir do Cabeço de Montachique, através do telégrafo de Monsanto.
De natureza perecível e amovível, sem cartografia de pormenor, o telégrafo da Serra do Socorro permanecia como memória histórica, sem evidências materiais da sua existência. Com base na documentação histórica (cartas, iconografia, despachos e alguns esboços) e nas evidências arqueológicas (deteção de provável buraco de poste junto à ermida) efetuou-se o projeto de reconstituição do telégrafo da Serra do Socorro.
A visita à Serra do Socorro, no coração das Linhas, inclui assim vários elementos de interesse. Poderá desfrutar da paisagem (eventualmente com observação de aves) e tentar encontrar os vários fortes e quartéis-generais situados na área envolvente através de um observatório de paisagem. No adro da ermida, conserva-se o possível elemento de poste musealizado.
O Centro Interpretativo dedicado à temática das comunicações foi instalado nas construções anexas à ermida, nas casas dos romeiros que cultuam devoção à Senhora do Socorro. A ermida e o Centro Interpretativo encontram-se abertos semanalmente, ao Domingo, ou mediante marcação prévia (261 819 711).
Na vertente Norte, encontra-se ainda construída uma réplica à escala real do Telégrafo. Anualmente, são efetuadas animações do telégrafo, montando o dispositivo, constituído por um mastro e uma verga na qual se hasteia um conjunto de balões.






