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Sondagem

Percorrer e Sentir as Linhas

A Defesa do Tejo

A defesa das Linhas de Torres também se ganhava junto às margens do rio Tejo, frente à vila de Alhandra, onde tem início a primeira linha. Uma flotilha de lanchas canhoneiras e corvetas da marinha britânica impediam a passagem do exército invasor para sul do rio, e vigiavam a importante estrada real que lhe corria paralela. A defesa do Tejo fez-se em estreita ligação com os fortes e entrincheiramentos construídos na serra a norte de Alhandra. Descubra o observatório de paisagem junto do Monumento aos Defensores das Linhas de Torres Vedras e percorra as obras militares de Subserra, assim como o centro interpretativo das Linhas de Torres ali perto, em Forte da Casa.

Na região de Vila Franca de Xira, passavam vias privilegiadas de acesso à capital do reino, que Napoleão tanto cobiçava. O grande rio Tejo, a via milenar na qual se transportavam rapidamente pessoas e mercadorias, e, correndo-lhe paralelamente, a Estrada Real das vilas, que ia de Santarém até à capital, passando por Alhandra e Alverca. Foi pela estrada real que três anos antes os soldados de Junot atingiram rapidamente Lisboa, falhando por pouco o aprisionamento da família real portuguesa.

A norte de Alhandra, oito fortificações coroavam a Subserra e a serra do Formoso, levantadas com o esforço quotidiano de camponeses e soldados, sob a direção dos engenheiros militares britânicos. No verão de 1810, trabalhavam só na zona de Alhandra 2500 pessoas. Era uma posição de grande força na primeira das duas Linhas de Torres Vedras, juntamente com as fortalezas maiores deste sistema defensivo: o Forte Grande do Alqueidão, em Sobral de Monte Agraço e o Forte de São Vicente, em Torres Vedras.

Aproveite a visita para conhecer um pouco Alhandra (38° 55' 30,039" N, 9° 0' 25,793" W). Tome um café nas esplanadas junto ao cais da vila, onde a vista se perde no rio, ou experimente passear pelo caminho pedonal ribeirinho, três quilómetros que ligam Alhandra a Vila Franca de Xira, onde a população corre e faz exercícios, anda de bicicleta ou simplesmente passeia ao sabor de dois dedos de conversa.

Olhando este cenário aprazível, dominado pela vastidão das lezírias e as águas calmas do Tejo, imagine o visitante as investidas da cavalaria francesa pela estrada ribeirinha, em outubro de 1810, tentando perceber as fortificações que se erguiam na serra a norte da vila. Através do óculo, observavam certamente as sentinelas aliadas. E não podiam ir mais longe: a vila estava completamente bloqueada com barricadas e defendida por aguerridas tropas portuguesas.

Nesse mês, dois combates deram-se à sua entrada, nos dias 14 e 16. As patrulhas francesas tentaram forçar a posição progredindo pela estrada real em direção às portas da vila, mas foram obrigadas a recuar perante a forte resistência do regimento português de infantaria 12.

Do amplo cais da vila, ainda hoje se avista, no alto da serra e rodeada de pinheiros-mansos, a imponente coluna branca que sustenta a estátua do guerreiro Hércules – é o Monumento aos Defensores das Linhas de Torres Vedras. O monumento abriga um observatório de paisagem, comecemos a visita às Linhas por aqui.

É acessível pela EN10, que se apanha pela A1 saindo em Alverca: na direção Vila Franca de Xira/ Alhandra, vire na segunda placa que indica Sobralinho (na primeira, se vem de Alhandra), e siga sempre em frente pela estrada do miradouro, passando o viaduto da autoestrada. Subindo a elevação, siga a placa que indica o monumento e, nas bifurcações que encontrar, opte sempre pela direita. Sempre a subir chegará rapidamente ao miradouro, que tem um parque automóvel onde pode estacionar. Também é acessível por um caminho pedonal que se inicia perto do painel de azulejos, com um panorama dos fortes, situado por baixo do viaduto da A1.

Chegados ao alto do monumento, é altura de apreciar, com vagar, a vista privilegiada sobre o rio Tejo, as lezírias, a vila de Alhandra e São João dos Montes. É o melhor miradouro da região, e sentimos logo a posição estratégica de toda esta serra a norte da vila. Repare no orgulho com que a estátua do herói grego Hércules, o “boneco” na gíria dos alhandrenses, desafia as alturas. Na base do monumento, vemos inscrita a frase, para memória futura: NON ULTRA. Não passaram os exércitos de Napoleão. Tem placas de homenagem aos engenheiros militares Neves Costa e Richard Fletcher e ainda ao esforço da população na construção das Linhas.

O monumento foi levantado no local onde se situava o Reduto da Boavista (n.º 3) e foi concluído em 1883. É um projeto do general Joaquim da Costa Cascais, edificado por ordem do marquês de Sá da Bandeira, primeiro-ministro e veterano da Guerra Peninsular. A estátua de Hércules, da autoria do escultor Simões de Almeida, simboliza a resistência tenaz do povo português e das Linhas face ao invasor napoleónico, segurando num grande bastão e numa pele de leão.

A defesa de Alhandra e do Tejo era uma preocupação constante do duque de Wellington, não hesitando em colocar canhões no alto da igreja matriz, que domina a vila. Teve ainda outra ideia: colocar peças de artilharia na ilha em frente, o mouchão de Alhandra, para impedir o avanço das tropas invasoras pela margem do Tejo. Mas cedo concluiu que era mais eficaz uma defesa por baterias flutuantes: naqueles dias chuvosos de outubro de 1810, defronte de Alhandra, uma flotilha de corvetas da Royal Navy e lanchas canhoneiras patrulhavam atentamente as águas em torno do mouchão, vigiando a estrada real restaurada por D. Maria I.

Experimente fazer um passeio no barco varino Liberdade (Informações: 263 285 600), embarcação tradicional do Tejo que é um dos núcleos do Museu Municipal de Vila Franca de Xira. Os outros situam-se em Alverca e na antiga igreja quinhentista do Mártir Santo São Sebastião (Imóvel de Interesse Municipal), no centro de Vila Franca. O barco apanha-se no cais da cidade (38° 57' 5,752"N, 8° 59' 17,141"W), entre os meses de maio a outubro e faz um percurso pelos típicos mouchões do Tejo, observando a sua fauna e flora características. Nas águas do rio, percebemos melhor a posição estratégica de Alhandra e a vigilância que os marinheiros britânicos faziam à estrada paralela ao rio.

Uma das suas vítimas foi o general de cavalaria Sainte-Croix, principal defensor, com Junot, de um ataque direto às Linhas. Durante um reconhecimento junto ao rio, perto de Vila Franca, foi morto pelo tiro certeiro de uma lancha canhoneira, uma perda muito sentida pelo marechal Massena, que lhe conhecia o grande valor. Tinha 28 anos.

Duas obras militares perfeitamente implantadas na serra aguardam ainda pela sua visita. Num percurso pedestre que não leva mais de 15 minutos a percorrer, siga o caminho que sobe à direita do Motoclube de Alhandra, por entre frondosos pinheiros. Chegado ao cimo, siga um trilho estreito à esquerda que vai dar a um caminho maior, ficando a fábrica da CIMPOR à sua frente. Aqui o mouchão de Alhandra é bem visível, cabe todo num olhar. Vire à direita e suba até a uma estrada larga de pedra e terra batida, que pode igualmente percorrer de carro. É esta via que nos deve nortear neste percurso.

Siga por esta estrada ladeada de pinheiros e eucaliptos, sempre animada pelo suave chilrear de pássaros, até chegar a um largo com um moinho antigo à direita e uma estação da EPAL à esquerda. Já falta pouco: repare que ao longe, sob uma torre de eletricidade, já se vê um pano de muralha do primeiro Forte da Subserra, obra militar n.º 114A. Continue o percurso subindo um pouco e a cerca de duzentos metros alcança a sua entrada.

Aprecie a vista deslumbrante que a fortificação lança para o vale de São João dos Montes e vila de Alhandra, à beira de um grande lençol de rio. Durante os preparativos para a defesa, a serra do Formoso e a Subserra, uma contínua cumeada natural, foram escarpadas em cerca de três quilómetros para desencorajar o ímpeto dos soldados atacantes. Em julho de 1810, já com os exércitos de Napoleão progredindo em território nacional, Wellington ordenou a construção de uma nova série de redutos, para reforçar esta posição.

O forte n.º 114A foi construído em escassos meses. Tinha capacidade para 100 homens e possuía três peças de artilharia. Controlando as alturas de Subserra, impedia uma progressão do inimigo pela estrada de Arruda a Alhandra, que vemos em baixo, assim como o torneamento da serra pela nossa esquerda, penetrando pelo vale de Calhandriz.

Há ainda mais para descobrir. Retome o caminho principal, e cedo chegará a uma bifurcação. Siga o caminho da esquerda, e subindo um pouco chegamos ao local dos dois moinhos do Forte de Subserra. Um deles é dos raros exemplares ainda em funcionamento no município de Vila Franca de Xira. Aprecie uma vez mais a soberba vista e a posição estratégica do forte n.º 114A, visto do alto. As forças defensivas aproveitaram a abundância de moinhos de vento na região e alguns foram convertidos em verdadeiros postos de tiro (blockhouses). Na região desprotegida de Vila Franca, o exército anglo-luso destruiu todos os moinhos que pôde, para não servirem o invasor.

Deixando os moinhos para trás, retome uma vez mais o caminho principal. Em poucos metros encontra dois trilhos que entram por uma mata de pinheiros e conduzem o visitante, daí a cerca de 50 metros, à Bateria Nova de Subserra, obra militar n.º 114B. Cruzando fogo com o forte vizinho, este posto de tiro tinha objetivos militares semelhantes, sobretudo impedir uma incursão dos soldados franceses pela serra e bater com o seu fogo a estrada real que ia de Arruda a Alhandra.

Nas imediações destas obras militares, encontra-se a formosa Quinta Municipal de Subserra, que vale muito a sua visita (38° 55' 40,830"N, 9° 1' 40,960"W). É uma propriedade rural da época das invasões. Após a revolução de 1820, foi residência do militar liberal Manuel Inácio Pamplona Corte Real (1760-1832), 1º conde de Subserra. Durante a defesa das Linhas o general Pamplona estava do outro lado da barricada, comandante da Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão, invadindo o país integrado no Estado-Maior de Massena. Só pôde regressar ao país e ser perdoado com o triunfo da revolução liberal de 1820.

O centro da localidade de Subserra fica na encosta que fortes e moinhos vigiam do cimo da serra. Se lhe restarem energias e quiser ir a pé, é um passeio agradável, mas tem uma subida íngreme na volta. Regresse pelo mesmo caminho e passe os dois moinhos, chegando à bifurcação que já conhecemos. Aí, desça o caminho à esquerda, passando o muro das traseiras da quinta, pela Rua do Marquês de Subserra. Chegados à localidade, e descendo sempre, há de encontrar o portão da quinta defronte do Clube Recreativo de Subserra. Se preferir, regresse ao carro estacionado junto ao monumento e apanhe de novo a EN10 em direção a Alhandra, chegando até debaixo do viaduto da A1. À esquerda, tem uma estrada com a indicação Subserra e aceda à localidade pela Estrada da Subserra.

Passado o portão da quinta, aprecie as vinhas que se estendem pela encosta: ainda hoje a Câmara Municipal mantém a tradicional produção vinícola e de uva de mesa. Os condes de Subserra reedificaram a capela e o palácio seiscentistas, arruinados desde o terramoto de 1755. Aproveite para desfrutar dos jardins de traçado geométrico, por onde passeou o general Pamplona, e espreitar a casa de fresco e a fonte em estilo rococó.

Depois, deixe-se encantar pelo amplo edifício solarengo, e a capela de São José, que possui no interior azulejos seiscentistas e um valioso retábulo no altar-mor, do célebre pintor Bento Coelho da Silveira. Nos seus passeios a cavalo pela Subserra, o general deve ter apreciado algumas obras militares como as que visitámos, que em 1810 venceram o exército invasor e asseguraram a independência nacional. Que terá ele pensado, olhando para este soberbo vale, das voltas que a História dá?

É hora, talvez, de regressar ao carro e beneficiar de um almoço ou de um lanche retemperador. Em Alhandra e Vila Franca não faltam locais de boa mesa. Aproveite para almoçar nos restaurantes junto ao cais de Alhandra, onde a vista se perde no rio e no horizonte das lezírias, ou, se preferir, deixe-se ficar pelo centro de Vila Franca de Xira, que tem oferta variada. Em março e em novembro os principais restaurantes do município aderem às campanhas gastronómicas, oferecendo pratos típicos. Na primavera prove a célebre Açorda de Sável, com o saboroso sável frito, pescado nas águas do rio Tejo.

Recuperadas as energias, complete a sua visita ao município com uma ida ao Centro Interpretativo das Linhas de Torres, no Forte da Casa. Apanhe de novo a EN10 em direção a Lisboa, passando pela cidade de Alverca. Mantenha-se atento, pois à saída vemos os Padrões do Termo de Lisboa (Imóvel de Interesse Público), dois elegantes obeliscos em pedra datados de 1782, um de cada lado da estrada, que assinalam a renovação do itinerário Lisboa - Santarém pela rainha D. Maria I (38° 53' 2,896"N, 9° 2' 58,884"W). Estamos a passar pela antiga Estrada Real das vilas, hoje Estrada Nacional, que o exército de Massena queria percorrer até Lisboa e que Junot utilizara três anos antes.

Na rotunda, siga a indicação da Rota Histórica da Linha de Torres e vire à direita, vencendo uma subida íngreme. A partir daí, siga as placas que indicam o Centro Interpretativo, até ao interior da vila. Reparou decerto nas ruas acidentadas desta freguesia: está situada na antiga serra da Albueira, no arranque da segunda Linha iniciada junto às salinas do rio Tejo. O contraste é grande com a paisagem calma e bucólica de Subserra.

A vila foi crescendo em torno do forte, que se distingue no centro da localidade, e dele tomou o nome. O reduto do Forte da Casa (n.º 38) integrava um conjunto de obras militares levantadas em pontos estratégicos da serra, hoje fortemente urbanizada. Percorra o interior das estruturas originais da fortificação e conheça a implantação regional dos fortes das Linhas de Torres. Conheça também a história conturbada das invasões e o seu impacto em Vila Franca de Xira. No final, verá que a sua visita tem ainda mais proveito.

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