Percorrer e Sentir as Linhas
O Nó das Linhas
O conceito estratégico das Linhas de Torres Vedras assentava no controlo da rede viária de acesso a Lisboa, por onde chegaria o Exército Francês e retiraria o Exército Inglês, em direção às linhas de redutos. Os itinerários disponíveis eram principalmente a estrada real ribeirinha a partir de Alhandra e a estrada de Torres Vedras para Lisboa, com a variante por Montachique e Mafra. A zona da Malveira e Venda do Pinheiro é, assim, um verdadeiro nó das linhas, onde se cruzam as estradas de Mafra e de Torres Vedras em direção a Lisboa. A rede de acessos e o acentuado relevo da região proporcionaram uma das maiores concentrações de fortificações das Linhas de Torres.
Inicie o seu percurso na vila da Malveira. Atualmente a função de nó viário permanece em uso, entrecruzando-se aqui a A8 e a A21, estando ainda disponível um acesso ferroviário (Linha do Oeste).
Na Malveira concentram-se três fortes (Santa Maria, Feira e Malveira (Forte do Cabeço Gordo?)). Localizando-se na vila, este forte assumiu o nome da feira anual instituída por D. Maria I em 14 de dezembro de 1782 para compra e troca de gado. Face à enorme popularidade desta feira e ao desenvolvimento originado pela chegada do caminho de ferro, em 1945 decidiu-se pela realização de uma feira semanal, à quinta-feira. Hoje, o mercado da Malveira conserva uma grande popularidade na região: ali se transacionam produtos agrícolas, gado, ferramentas, vestuário, mobílias, pássaros ou velharias.
Por altura das Invasões Francesas, o núcleo urbano da Malveira estaria restrito a uma área junto da capela de Nossa Senhora dos Remédios, mas a área anexa ao local onde se implantou o forte era recorrentemente frequentada para a referida feira.
A partir do centro da vila (o Largo da Feira) poderá facilmente chegar à obra n.º 66 situado na “Rua do Forte”.
Oculto por árvores e casas, o Forte da Feira foi objeto de um prolongado processo de pesquisa arqueológicas, dando a conhecer importantes estruturas e ocupações soterradas por metros cúbicos de sedimento. Na estrutura de acesso ao forte está disponível informação detalhada sobre este monumento, podendo escolher o seu percurso de visita. Sugerimos que siga a ponte de madeira e entre diretamente no interior do forte, chegando à zona de entrada, a qual estava protegida por duas estruturas de terra em cotovelo, reforçadas por uma paliçada. O percurso encontra-se marcado no terreno e evidencia-se desde logo o paiol posicionado em frente à entrada, com a proteção de um través.
A estrutura do paiol encontrava-se completamente coberta de terra antes da intervenção arqueológica mas é agora possível efetuar uma reconstituição integral desta estrutura a qual combinava terra compactada, muros em pedra, argamassa e madeira. A estrutura semienterrada era encimada por uma estrutura pétrea que suportava um telhado em madeira, encaixando em construção pétrea revestida a argamassa. O acesso ao paiol era efetuado através de uma rampa de madeira e o interior dispunha de um estrado de madeira para proteger a pólvora da humidade.
Rodeando o paiol, encontram-se posicionados vários traveses de proteção e, em direção à estrada Malveira-Lisboa, localizam-se as seis bocas de fogo. Foi selecionada para escavação e restauro uma das canhoneiras, a qual evidenciava um sistema construtivo com paramentos de pedra laterais e base pétrea para apoio de um estrado, parcialmente identificado.
Após percorrer todo o forte, poderá entrar no fosso, escavado na rocha, e ter uma perspetiva diferente deste tipo de estrutura.
Para concluir a visita, e apesar do forte estar rodeado por árvores, convidamo-lo a posicionar-se em pontos de observação selecionados (marcados no terreno) e observar os fortes que estariam associados: a Este o Forte do Matoutinho (n.º 68) e a norte o Forte de Santa Maria (n.º 67).
Com efeito, na estrada entre a Malveira e Montachique praticamente todas as colinas foram selecionadas para o sistema defensivo da 2ª linha.
A partir da Malveira, dirija-se então ao núcleo de Montachique, podendo previamente usufruir da gastronomia local. Deve seguir as indicações da Autoestrada e entrar na A8 rumo a Lisboa. Outra alternativa será continuar pela Estrada Nacional 8 (EN8) em direção a Lousa, a partir da qual deverá dirigir-se à povoação de Cabeço de Montachique, pela EN 374-2 e desta povoação, tomar o rumo de Lisboa.
Na povoação de Lousa, destacamos a igreja paroquial de São Pedro (38° 53' 22.34"N, 9° 12’ 23.35"W), que assume uma presença notória pela sua localização, ao qual se acede por uma escadaria. De linhas simples, de uma só nave e com uma torre sineira, ligeiramente recuada, em relação ao plano da fachada principal, apresenta um portal lateral manuelino, datado de 1546.
Na povoação de Cabeço de Montachique, existiu um armazém, que assegurou parte do abastecimento do exército anglo-luso, durante as Guerras Peninsulares. Localizado na povoação, o Reduto do Moinho (n.º 54), parcialmente destruído, garantia a defesa deste eixo viário, juntamente com os Redutos da Achada (n.º 60 e n.º 61), e articulava diretamente com os redutos de Montachique (n.º 55) e do Mosqueiro (n.º 57), estes últimos inseridos em circuitos de visita.
Atravessando o núcleo urbano de Cabeço de Montachique, deverá prosseguir rumo a Loures, até ao Casal do Andrade, cruzamento, que faculta o acesso a vários locais de interesse relacionados com a Rota Histórica das Linhas de Torres: o Observatório de Paisagem de Montachique, o reduto de Montachique (n.º 55) e o Circuito de Ribas, que engloba o reduto do Mosqueiro (n.º 57), o reduto de Ribas (n.º 51), a estrada militar e o escarpamento de Ribas.
No Casal do Andrade, existem várias opções; poderá virar à sua direita e subir ao Alto do Mosqueiro, o ponto mais elevado do município de Loures, excelente observatório de paisagem, onde existiu um poste de sinais à semelhança da réplica do semáforo da Serra do Socorro (Mafra); ou seguindo na direção de Casaínhos e conhecer as obras militares edificadas na serra de Ribas; ou ainda, escolher a direção do Freixial e visitar o reduto de Montachique (n.º 55).
O Alto do Mosqueiro é uma colina de basalto, testemunho de uma antiga chaminé vulcânica, constituindo um marco na paisagem. Neste lugar poderá observar para Norte, diversas povoações, o mosaico da paisagem e outras posições militares da 2ª Linha; para Oeste, ao fundo na linha do horizonte, a magnífica Serra de Sintra; para Sul e Leste, várias povoações como Caneças, Loures, Lisboa, o rio Tejo e a imponente Serra da Arrábida.
O reduto do Mosqueiro (n.º 57) é a obra militar mais próxima deste observatório de paisagem, situada a escassos metros do cruzamento do Alto do Andrade, mais propriamente no início da denominada Estrada do Forte, via que estabelece a ligação entre esta posição militar e o reduto de Ribas, localizado na extremidade desta cumeada.
À semelhança dos outros locais escolhidos para a edificação destas estruturas militares, o reduto do Mosqueiro é mais um exemplo de um ponto privilegiado em termos de visualização para outras fortificações; simultaneamente de difícil acesso, com uma vertente bastante íngreme e que em articulação em com outras posições próximas, possibilitava o controlo dos desfiladeiros de Montachique, Ribas e de São Gião.
O reduto do Mosqueiro está implantando numa zona composta por formações margosas e calcárias, datadas do Período Cretácico, que são cortadas por uma intrusão de massa basáltica. Esta característica geológica está evidenciada nos paramentos da escarpa, que utilizam pedra calcária ou basáltica, conforme os materiais, provenientes da abertura do fosso, que circunda a obra militar. Se observar com atenção, alguns calcários são detentores de registos fósseis, nomeadamente de conchas de bivalves.
O visitante poderá percorrer o fosso, que ainda conserva parte dos paramentos da escarpa, bem como da contraescarpa. Ao longo deste percurso irá verificar acentuadas diferenças do coberto vegetal, que circunda a obra militar: uma vegetação rasteira e de cariz mediterrânico, por oposição, a um coberto vegetal de maior porte, característico de zonas mais húmidas, semelhante à serra de Sintra.
No interior do reduto, destacam-se o través (que protege a entrada), o paiol e várias canhoneiras. No interior da praça militar, o visitante consegue visualizar os obstáculos naturais que, a norte, dificultam o acesso à capital, identificando várias obras militares na 2ª Linha Defensiva, por exemplo o reduto de Montachique, o forte do Permouro e as posições da Achada; mas também algumas da 1ª Linha, como as posições do Calhandriz. Outra característica desta obra militar é a sua estreita articulação com o escarpamento de Ribas (obra n.º I, 38°53'48.52" N; 9°10'19.64" W) que reforça a linha defensiva de toda a cumeada, ligando esta posição militar com o reduto de Ribas (n.º 51).
De seguida, sugerimos um pequeno percurso até ao reduto de Ribas, prosseguindo ao longo da cumeada e palmilhando uma antiga estrada militar, ladeada pelo escarpamento de Ribas. Ao longo deste aprazível trajeto, a paisagem que se vislumbra caracteriza a zona rural do Município de Loures; o predomínio de uma cobertura herbácea nas terras altas, contrastando com um mosaico de diferentes usos do solo, nas áreas de menor altitude. Outra característica desta região rural é o conjunto de sebes de vegetação, idêntico ao que se pode observar nos municípios vizinhos de Sintra, Mafra e Arruda dos Vinhos. Curiosamente, remetem para certas paisagens açoreanas ou britânicas. Na área envolvente do reduto de Ribas subsiste uma vasta zona de orquídeas selvagens.
O reduto de Ribas (n.º 51) é uma obra notável e possui uma vista magnífica. É possível, a partir deste local, estabelecer contacto visual com várias fortificações, como sejam as mais próximas de Montachique e da serra dos Picotinhos, ou até as mais distantes, como as da serra de Alrota ou do Calhandriz. Aproveita parte do declive, como fosso; as escarpas são revestidas com paramentos de pedra calcária, assim como a zona da contraescarpa junto ao acesso da obra militar. No interior, os reparos são também em alvenaria e atingem uma altura média de 50 cm. Esta posição militar, tinha como principal objetivo proteger o flanco esquerdo do desfiladeiro do Freixial, em articulação com o reduto do Quadradinho (n.º 50), localizado no flanco oposto.
A partir deste local, poderá seguir a estrada militar descendo a encosta, até esta entroncar com a estrada municipal, que virando à direita, se dirige a Fanhões, ou que virando à esquerda, dá acesso às povoações de Ribas de Baixo, Freixial e Bucelas. Para completar a visita ao Nó das Linhas, sugerimos que rume em direção a Ribas de Baixo, subindo até Ribas de Cima e, desta povoação, até ao Parque Municipal de Montachique, onde se localiza o reduto com a mesma designação. À entrada do Parque Municipal (38°54'6.88"N, 9°11'9.15"W), o visitante encontrará informação sobre o GR30, o troço deste percurso pedestre, correspondente ao território do município de Loures.
Este equipamento municipal oferece ao visitante um conjunto de atividades de ar livre e de serviços de apoio, sendo um excelente lugar para uma pausa repousante. O Parque Municipal de Montachique é essencialmente constituído por uma formação arbórea, onde se misturam pinheiros, eucaliptos, freixos, sobreiros e carvalhos-cerquinho. Da flora arbustiva podemos destacar o tojo-arnal, a urze-das-vassoras e o medronheiro. Neste contexto marcadamente florestal, podemos observar avifauna, como o pisco-de-peito-ruivo, o chapim, a carriça, ou o pica-pau-malhado-grande.
Localizado no interior do perímetro do Parque, o reduto de Montachique (n.º 55) apresenta um fosso escavado na rocha, que poderá percorrer durante a visita, e no seu interior, um pequeno paiol, um través e várias canhoneiras, direcionadas para o desfiladeiro de São Gião, defendendo assim, este eixo viário.
Concluído o percurso do Nó das Linhas, uma vez mais tem ao seu dispor duas opções: regressar a Lisboa, utilizando a Estrada Nacional 8, ou mesmo a A8, ou descer até ao verdejante vale da povoação do Freixial, onde poderá conhecer a igreja de Nossa Senhora da Conceição, o seu jardim com um coreto e um magnífico chafariz oitocentista e rumar na direção da vila de Bucelas, rica em gastronomia e famosa pelo seu vinho.
Bucelas, capital do vinho Arinto, está inserida na “Rota dos Vinhos, Bucelas, Carcavelos e Colares”. A fama do seu vinho é bastante antiga, mas durante a Guerra Peninsular, ganhou renome internacional. Wellington ofereceu ao rei Jorge III, príncipe regente, vinho desta região, que foi muito apreciado, tornando-se o seu consumo, um hábito da coroa de inglesa.
O Centro de Interpretação das Linhas de Torres fica localizado no núcleo antigo da povoação de Bucelas (ver percurso Grandes desfiladeiros). Fornece ao visitante um conjunto de informação sobre as obras militares deste sistema defensivo construído no Município de Loures; bem como dos circuitos de Alrota/ Arpim, Ribas, Picotinhos e Serves, e do GR30; inclui também uma abordagem ao esforço da população na edificação deste importante conjunto patrimonial da arquitetura militar.






