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Sondagem

Percorrer e Sentir as Linhas

Do Palácio ao Atlântico

O Palácio Nacional de Mafra é, naturalmente, um local privilegiado para iniciar uma visita à Rota Histórica das Linhas de Torres, partindo da vila em direção ao mar. Este edifício constitui um dos principais cenários da história das Guerras Peninsulares, tendo-se aqui sucedido alguns dos factos mais relevantes das Invasões Napoleónicas a Portugal.

Desde 1805, o Real Paço de Mafra converteu-se na residência do Príncipe Regente D. João, que aqui se refugiou dos problemas familiares e, sobretudo, da intensa pressão política exercida por França e Inglaterra sobre os domínios ultramarinos detidos por Portugal. Do período em que D. João residiu em Mafra, restam muitos testemunhos e histórias, destacando-se os seis órgãos da Basílica, encomendados a Machado de Cerveira e Peres Fontana, inaugurados em outubro de 1807. Com as Invasões Francesas, iniciou-se um conturbado processo que levou ao desmantelamento dos órgãos, particularmente o de São Pedro de Alcântara, hoje restaurados após um longo processo de reabilitação e que podem ser vistos e regularmente ouvidos em concertos.

Terá sido no Real Paço de Mafra que se tomou a decisão da partida para o Brasil. A conceção e preparação da viagem tiveram lugar em Mafra, desde o verão de 1807, com a realização de vários Conselhos de Estado. Esgotadas todas as alternativas, a partida da Família Real para o Brasil constituiu, assim, a única solução perante o avanço dos exércitos napoleónicos e impedindo que o Rei fosse deposto.

Durante a Primeira Invasão Francesa, Mafra converteu-se em Quartel-General, inaugurando uma utilização militar do edifício que se mantém até à atualidade. A 8 de dezembro de 1807, instalou-se no Palácio uma Divisão do Exército Francês sob o comando do temido general Loison, conhecido entre a população como o “Maneta”. A presença do Exército Francês em Mafra terá tido um grande impacto sobre a população, sujeita a constantes requisições de bens, à ocupação de casas e a alguns conflitos. Um memorialista local, Eusébio Gomes, relata alguns dos episódios da ocupação francesa, o mais marcante dos quais foi a execução de Jacinto Correia, um funcionário do Palácio que se revoltou contra as usurpações dos soldados franceses. No Jardim da Alameda, situado na área sul anexa ao Palácio de Mafra, próximo do local onde Jacinto Correia terá sido executado a 26 de janeiro de 1808, foi colocada uma placa evocativa que transcreve as suas últimas palavras: “Se todos fossem como eu não sobrava um francês vivo”.

O final da Primeira Invasão foi igualmente registado em Mafra. Em 2 de setembro de 1808, o Exército Inglês entrou em Mafra, recebido com toques de carrilhões, tendo ficado acantonados na vila uma Brigada de Infantaria e um destacamento de Cavalaria.

A partir de 1809, Mafra continuou a exercer um importante papel nas Invasões Francesas, particularmente na construção das obras defensivas. O coronel Fletcher, Comandante do Corpo de Engenheiros de Sua Majestade Britânica para as Linhas de Torres, possuía dois Ajudantes – o capitão engenheiro Guilherme Rossi, responsável pela 2.ª linha de fortificação (instalado em Mafra) e o tenente engenheiro Rice Jones, estabelecido na vila da Ericeira. Na construção dos fortes, colaborava o Regimento de Milícias da Figueira, acantonado na Vila de Mafra, que tinha como propósito trabalhar nos redutos da 2.ª Linha de Defesa.

Em vésperas da terceira invasão, em outubro de 1810, o Palácio de Mafra converteu-se também em Hospital Militar, instalado na Enfermaria do Convento de Mafra. A Tapada de Mafra foi amplamente utilizada para obtenção de madeira e aí foram instalados armazéns de víveres, nomeadamente o gado necessário para o provimento do Exército Britânico.

Com o final da terceira invasão, o marechal Beresford solicitou a D. Miguel Pereira Forjaz, em maio de 1811, que instalasse o Depósito de Recrutas em Mafra, no “Convento e Paço Real da mesma Vila”, provavelmente em funcionamento desde 1809, mantendo-se essa função de formação e treino até aos dias de hoje, com a Escola Prática de Infantaria, criada em 1887.

Para conhecer o cenário onde se desenrolaram estes acontecimentos, deverá dirigir-se ao Palácio de Mafra. No Claustro Sul, poderá visitar o Centro Interpretativo de Mafra, instalado no átrio, em área anexa ao Posto de Turismo. Aí poderá conhecer melhor a história das Invasões Francesas no município através de um filme e dos vários conteúdos disponibilizados no Centro Interpretativo. A visita poderá ser complementada no Palácio Nacional de Mafra, onde se conservam importantes marcas da presença da corte do Príncipe D. João, nomeadamente os tetos pintados por Cirilo Volkmar Machado ou a Sala das Invasões, onde está reunido um conjunto de pinturas relacionado com esta temática. Mediante marcação prévia, poderá ainda visitar o Museu da Escola Prática de Infantaria, com temática militar, e visitar o Forte do Juncal (mediante marcação prévia para grupos de 10), situado na Tapada de Mafra, o único forte das Linhas de Torres que manteve, até à atualidade, a sua utilização por unidades militares.

Partindo do Convento até às Linhas, poderá conhecer em Mafra grande parte da segunda linha defensiva a qual se encontrava na sua maioria implantada neste município, cruzando o território desde a faixa atlântica até às alturas da Tapada de Mafra. A importância desta área levou à construção de um grande conjunto de redutos, constituindo inicialmente a principal linha defensiva. Os trabalhos em Mafra desenvolveram-se entre fevereiro e outubro de 1810, estando todos os fortes edificados aquando da terceira Invasão Francesa, contrariamente ao que sucedeu em outras divisões.

Deste conjunto, podemos visitar troços selecionados da segunda linha, destacando-se o Circuito da Carvoeira junto ao Atlântico. A partir do Convento de Mafra, deverá seguir pela Av. 25 de Abril em direção a Norte (virar à esquerda) (e seguir até ao final da Avenida) até chegar a uma rotunda que deverá contornar e virar na segunda rua, à direita (rua Professor Guilherme d’Assunção). A partir desse ponto, deve seguir em frente, saindo de Mafra, pela Estrada Municipal 549 passando em Gorcinhos (onde Jacinto Correia enfrentou os franceses em 1808) até chegar à localidade de Zambujal. Aí está assinalada a aproximação ao Forte do Zambujal. Pode chegar de carro, em caminho assinalado no interior do lugar do Zambujal ou optar pelo acesso pedestre, estacionando a sua viatura no vale do Lisandro em parque de estacionamento devidamente assinalado e aventurando-se a subir a íngreme encosta da “Serra Gorda” defendida pelo forte.

O Forte do Zambujal (n.º 95) apresenta uma traça única em todas as Linhas, com planta composta, constituída por reduto central e bateria avançada. Estas estruturas encontravam-se rodeadas por fosso de proteção e ligadas por túnel e acesso amuralhado. Este reduto foi alvo de uma extensa campanha de escavações e restauro em 2009, encontrando-se devidamente assinaladas, através de sinalética, tanto a explicação dos principais elementos do forte, como a apresentação dos resultados dos trabalhos arqueológicos, nomeadamente a presença de uma paliçada e de uma plataforma de madeira para artilharia.

O conjunto dos fortes de São Julião (n.º 97), Carvoeira (96) e Zambujal (95) constitui o chamado núcleo da Carvoeira, conjunto autónomo a sul da segunda linha que tinha como objetivos estratégicos a defesa das praias do Lisandro e de São Julião, apoiando a frota inglesa e o controlo da estrada entre Ericeira e Sintra.

O forte do Zambujal defendia o desfiladeiro de Fonte Boa da Brincosa, o vale da Senhora do Porto (ou Senhora do Ó) e a estrada da Carvoeira. A partir do forte poderá desfrutar da paisagem do vale do Lisandro na sua área vestibular, com os campos cultivados e os inúmeros elementos de interesse histórico e patrimonial.

Destacamos a Ponte Medieval da Senhora do Ó, construída presumivelmente no século XIV, destinada a ligar as duas margens do rio Lisandro. Implantada junto à ponte medieval, a igreja de Nossa Senhora da expectação do Porto da Carvoeira (conhecida como Senhora do Ó) deve ter também origem medieval, apesar de o atual conjunto ser o resultado de uma grande reforma, verificada nos séculos XVII e XVIII.

Conhecido como Ribeira de Cheleiros ou Rio Lisandro, este curso fluvial dispunha de um cais perto da atual Capela de Nossa Senhora do Ó, onde se pensa que eram carregadas as embarcações de carvão rumo à capital. Terra de lendários eremitas, que procuraram o isolamento nas inóspitas falésias de S. Julião, conta-se que uma das atribuições dos seus habitantes era a de montar sentinela a um facho de sinalização, que a tradição coloca na Idade Média e justificável ante o perigo muçulmano, mas que deve antes estar relacionado com a navegação marítima. Foi justamente um dos ermitões de S. Julião que ocasionou a criação da lenda da existência de um “D. Sebastião” em finais do século XVI (Mateus Álvares), tendo posteriormente a revolta sido reprimida pelo exército filipino no vale da Senhora do Ó, com a execução do “falso D. Sebastião”.

Para terminar o percurso, pode rumar ao Atlântico até à extremidade mais meridional da 2ª Linha. Deve retomar a estrada municipal 549 em direção à Carvoeira e chegando à localidade, no cruzamento com a Estrada Nacional 247, deve virar à esquerda em direção a Sintra. Subindo a estrada chegará a um cruzamento para São Julião / Valbom. Quando chegar a Valbom deve cruzar toda a localidade e próximo de um marco geodésico encontra-se o Forte de São Julião.

Localizado a Sul da Ericeira, na elevação de Valbom, entre a Praia de São Julião e a Praia do Lizandro, o Forte de São Julião estava claramente em ligação com a Armada Inglesa que “fechava” o cerco das Linhas no Atlântico. Aqui se situava um telégrafo que comunicava com os navios e com terra, ligando-se a Norte ao posto telegráfico sito no forte da Lagoa (n.º 90) e a Este no forte do Sonível (75).

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